sexta-feira, 7 de julho de 2017

Já nada me irrita! (Original)

Tento me compreender,
Conter-me sem te prender,
Ser teu sem me perder,
Comprometer-me sem te pretender.

Saber o que não me contas,
Algo para somar às tuas contas,
Consumir sem prestar contas,
Para consumar algo incerto, no final de contas.
Começo-te a subtrair nas minhas contas,
E gostava que a vida permanecesse um aglomerado de “fazer de contas”.

Tento te pretender,
Conter-me sem me perder,
Ser teu sem me prender,
Comprometer-me sem te compreender,

Mas regressas mesmo após te afastar,
Não sei o que comigo te faz estar …
Um beijo, uma festa, um perfume que enfesta um leve ar?
Um dia vou te levar para a praia, para a beira-mar.
Gosto de ti! Vem para a minha beira, quero te amar.
Juro que os teus pés [não] irei lavar,
Juro que em teu redor [não] irei orbitar.
Entramos num barco começamos a remar,
Rema, remo, tremo, mas a algum sítio te hei de levar,
Instável, vivo num extremo, e não sei ao certo o que fará este barco flutuar.

Tento não me perder,
Conter-me e te compreender,
Ser teu e te pretender,
Comprometer-me e me prender.

Às vezes acordo a meio da noite e ouço-a a me chamar,
Suplica-me para mergulhar,
O barco é pequeno, o oceano é colossal,
O barco é seguro, tudo o resto é sal.
A vida é um momento, é tudo tão banal,
Arrisca-se no momento para se sentir algo real,
E eu não sei se ela é a tal!
Na plenitude da minha latência fico deitado no barco a ver o por-do-sol,
Com a mão direita na água salgada, à espera que o mar devolva o meu coração,
Já não sei o que é sentir empatia ou afeção!
A minha mão esquerda continua a escrever silenciosas palavras de insegurança e desilusão.

Tento não me prender
Conter-me e te pretender
Ser teu e te compreender
Comprometer-me e me perder.

Fugi da nau num exíguo bote,
Acompanhado por um tigre, a vida de Mi.
No bote tentei salvar vidas, mesmo sendo incapaz de me salvar a mim.
Não foi um naufrágio, não, o barco era um mero mote.

Agora estou no diligente e repleto Porto,
Inerte no meu conforto,
Seguro, mas vazio e morto.
Azio vendo a simplicidade do que escrevo, mas nada me irrita,
Apesar de sentir o ácido, alegro-me por algo ser simples, leve e básico.
Nada me irrita, nada me irrita … até tudo me irritar,
Até de ti me fartar …
Ri-te, ris-te vendo o desconforto no meu olhar,
Fujo, sujo vendo a verdade a me avassalar.

A minha alma grita pelo processo egoísta da minha escrita,
Uma inquietude abismal, talvez precise de um exorcista, um espirita.
Estou a ser um hipócrita demasiado otimista, e é isto o que me irrita:
“Não amo pessoas ao ponto de lhes dar a minha fé.”
Por vezes penso que não vale a pena manter-me de pé,
Deveria ajoelhar-me e cantar uma vulgar devota melodia em Ré …
Mas hoje está um dia demasiado quente, para se ser um inócuo crente.
Uma pupila dilatada, procura o ponto de impulso máximo, a mediana. Já se sente!
Prepara-se para cravar uma cruz de cristal no cerne de um modo benevolente.
Quis cristo fazer a minha aorta em formato de crossa,
E o meu coração rígido para que amar não possa.
Demasiado público, demasiados espectadores, esta realidade é muito pouco nossa,
Mas, no meio da multidão, ainda sentes algo ...
E ris-te porque a vida tem um sentido de humor sádico e triste, e insiste escrever os teus versos em prosa. 

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